A periodização do treinamento desportivo: histórico e perspectivas atuais

La periodización del entrenamiento deportivo: historia y perspectivas actuales

Postado em em Artigos científicos

EFDEPORTES - Revista Digital – Buenos Aires – Año 14 – Nº 142 – Marzo de 2010

Hugo Tourinho Filho*, Valdir José Barbanti**

* Faculdade de Educação Física e Fisioterapia - Universidade de Passo Fundo (UPF)

** Escola de Educação Física e Esporte - Universidade de São Paulo (USP)

Resumo

 A presente revisão busca resgatar alguns aspectos históricos da periodização do treinamento desportivo, suas definições e perspectivas atuais, levando-se em consideração os avanços observados na área do desporto de rendimento. Tomando como base a periodização clássica proposta por Matvéiev são apresentadas algumas alternativas para esse modelo, das quais se destacam: o treinamento pendular, o treinamento modular, o treinamento em bloco, o treinamento estrutural, o treinamento individualizado de Bondarchuk e a estrutura de treinamento para as modalidades coletivas. Ao confrontar as informações obtidas, parece razoável sugerir que a utilização de uma ou de outra estrutura de periodização do treinamento desportivo depende, basicamente, do esporte cujo treinamento se pretende planejar e, conseqüentemente, alcançar a forma esportiva, isto é, se o esporte é coletivo ou individual; se predominam características de força ou resistência, ou, então, uma forma combinada de ambas as capacidades, além da preocupação com o tempo disponível para a preparação do atleta, assim como a duração do período competitivo a que o atleta será submetido (calendário de competição). Seja qual for a estrutura de treinamento escolhida, essa deverá ter como objetivo provocar adaptações no organismo do atleta para que obtenha a forma esportiva exatamente no momento ou momentos mais importantes do calendário competitivo.

Unitermos: Periodização. Treinamento desportivo. Desporto de rendimento

1. Introdução

O treinamento desportivo é uma atividade bastante antiga, que vem evoluindo em uma progressão geométrica através dos tempos. Há milhares de anos, no Egito e na Grécia, já é possível constatar o uso de alguns princípios do treinamento para preparar atletas para os Jogos Olímpicos e para a guerra (BARBANTI, 1997). Sem dúvida, é na Antigüidade grega que se encontra o ponto de partida para o desenvolvimento dessa área, fato que se deve ao grande número de jogos lá praticados, principalmente os Jogos Olímpicos, que serviram, inclusive, de inspiração ao barão Pièrre de Coubertin para a criação das Olimpíadas modernas (TUBINO, 1984).

Como exemplo da influência da cultura grega sobre a teoria do treinamento desportivo atual, TUBINO (1984) cita a preparação dos helênicos, que se compara, em vários aspectos, ao treinamento empregado hoje, pois os helênicos já faziam uma preparação generalizada (corridas, marchas, lutas, saltos, etc.); usavam cargas para melhoria dos rendimento; tinham preparo psicológico; utilizavam o aquecimento no início e a volta à calma acrescida de massagens no final das sessões, além de possuírem, a exemplo das concepções científicas modernas, os chamados ciclos de treinamento, denominados na época por tetras. No entanto, foi somente no final do século XIX, com o renascimento dos Jogos Olímpicos, que o treinamento desportivo passou de uma forma espontânea a uma estrutura mais sistemática, visando elevar o rendimento esportivo (BARBANTI, 1997).

Atualmente, em quase todos os esportes, divide-se o ano de treinamento em vários períodos e ciclos com o objetivo específico de alcançar um alto rendimento por meio de uma preparação sistemática (BARBANTI, 1997). Dessa necessidade de se organizar o processo de treinamento em ciclos, fases, períodos, surgiu o termo periodização.

De acordo com SILVA (1998), periodização significa a divisão da temporada de preparação em períodos e etapas de treino com objetivos, orientações e características particulares, o que implica a definição de procedimentos e orientações de treino específicos. A periodização, portanto, constitui-se numa das etapas mais importantes do planejamento do treino, uma vez que influi de forma decisiva na organização e estruturação do treino.

Em uma revisão elaborada por SILVA (1998), relata-se que os fundamentos que justificaram a necessidade de se dividir a temporada em períodos e etapas específicas de preparação residiram, inicialmente, na necessidade de atender às especificidades do treino, determinadas pelas variações climáticas. Posteriormente, foram incorporadas necessidades impostas pelos calendários de competição, pelas exigências fásicas da adaptação do organismo e, finalmente, pelo reconhecimento de particularidades inerentes às várias modalidades esportivas, as quais precisam ser atendidas e respeitadas pela lógica dos processos de preparação.

Sobre os precursores dos estudos referentes à periodização do treinamento desportivo, com base, ainda, na revisão de SILVA (1998), verifica-se que as primeiras noções sobre o assunto foram elaboradas pelo russo Kotov, na segunda década do século XX (1916/1917). Na década de 1950, o professor Lev Matvéiev atualizou e aprofundou os conhecimentos desenvolvidos anteriormente e, com base nos sistemas de preparação dos atletas soviéticos, estruturou os fundamentos teóricos de um sistema de treino que se tornou hegemônico em quase todo o mundo, passando a ser adotado como referencial básico para os processos de preparação esportiva (SILVA, 1988).

Já segundo FLECK & KRAEMER (1999), os estudos sobre periodização do treinamento desportivo foram, inicialmente, desenvolvidos entre os levantadores de peso da Europa Oriental como uma maneira de mudar as sessões de treinamento desses atletas ao longo do tempo visando permitir-lhes uma melhor recuperação e, com isso, maiores ganhos em força e potência.

Os técnicos e cientistas esportivos europeus orientais notaram que o volume e a intensidade de treinamento de atletas bem-sucedidos seguiam um certo padrão durante o ano de treinamento: no início do ano, o volume era alto e a intensidade baixa; conforme o ano progredia, o volume diminuía e a intensidade aumentava; antes de uma competição, o volume estava no seu ponto mais baixo e a intensidade, no ponto mais alto. Em virtude da necessidade de recuperação para uma competição, a intensidade também era ligeiramente diminuída imediatamente antes dela (FLECK & KRAEMER, 1999).

O conceito fundamental que promove a periodização baseia-se na síndrome de adaptação geral de Selye, a qual propõe que a adaptação do corpo passa por três fases quando o organismo é defrontado com uma exigência, no caso, o estímulo oferecido pelo treinamento físico. A primeira fase é conhecida como choque: quando o corpo enfrenta um novo estímulo de treinamento, a “dor” (desconforto) se desenvolve e o desempenho realmente diminui. A segunda fase é a adaptação ao estímulo: o corpo adapta-se ao novo estímulo de treinamento e o desempenho aumenta. A terceira fase é caracterizada pelo cansaço: o corpo já se adaptou ao novo estímulo, não acontecendo mais adaptações. Nessa fase, é possível que o desempenho não mude ou, no caso de muitos atletas altamente motivados, o desempenho pode diminuir pelo excesso de treino (FLECK & KRAEMER, 1999).

Para SILVA (1995), a grande importância da periodização do treinamento desportivo está na possibilidade de controle do processo da forma esportiva do atleta –, definida por MATVÉIEV (1986) como um estado de ótima (a melhor possível) preparação do atleta para a obtenção de determinados resultados esportivos. De modo geral, a forma esportiva é uma unidade harmoniosa de todos os aspectos (componentes) da capacidade ótima do atleta: físicos, psíquicos, técnicos e táticos. Ainda segundo MATVÉIEV (1986), somente a presença de todos esses componentes permite afirmar que o atleta se encontra em boa forma. Seguindo essa concepção, o treinador procura, pela aplicação de cargas de treino adequadas, conduzir as várias etapas da forma do atleta, buscando fazer coincidir o período de resultados elevados com a época das grandes competições.

Nesse sentido, a periodização do treinamento desportivo procura organizar e orientar o processo de preparação de modo que a ocorrência da forma aconteça por ocasião da competição ou das competições mais importantes da temporada. Assim, o treino para obedecer ao ciclo da forma deve ser dividido em três períodos: preparação, competição e transição, que correspondem às três fases da forma, respectivamente, aquisição, manutenção e perda temporária (SILVA, 1997).

O período de preparação, dividido em fase básica e fase específica, corresponde à fase em que o atleta adquire os pressupostos da forma, desenvolvendo, portanto, as condições necessárias a uma boa participação esportiva. O período de competição é aquele em que o atleta, encontrando-se em forma, está apto para produzir os melhores resultados. Já o período de transição destina-se a administrar a queda da forma, como condição necessária à aquisição de uma nova forma em condições mais elevadas (SILVA, 1997).

Em relação, ainda, ao tipo de periodização utilizada, MATVÉIEV (1986) destaca os ciclos semestrais e anuais. Para os esportes de elevada exigência de resistência, sugere-se a periodização simples (ciclo anual), que busca apenas um período de resultados elevados; para os esportes de força e velocidade, os ciclos semestrais (periodização dupla), ou seja, com mais de um período de resultados elevados. Existe, além dessas, a periodização tripla, que é usada para atletas jovens em formação e que não têm ainda uma estrutura rígida (BARBANTI, 1997).

De acordo com a proposta clássica de MATVÉIEV (1986), de forma aproximada, podem-se indicar os seguintes limites para os ciclos que caracterizam a periodização do treinamento desportivo:

  • período preparatório: de três a quatro meses (principalmente nos ciclos semestrais) e até cinco a sete meses nos ciclos anuais;

  • período competitivo: de 1,5 a dois meses, podendo se estender até quatro ou cinco meses;

  • período de transição: de três a quatro semanas até seis semanas.

Na maioria das modalidades e para atletas de categorias diversas, os limites racionais dos períodos do treino podem ser escolhidos entre os valores propostos por MATVÉIEV (1986), desde que, segundo o referido autor, haja condições suficientes para variar o planejamento do treino. De maneira geral, o período preparatório mais longo é observado no caso do treino de corredores de fundo e especialistas do pentatlo ou do decatlo; por sua vez, o período competitivo mais longo é típico das modalidades que envolvem os jogos coletivos. No período competitivo dos jogos coletivos, a forma esportiva de todo o grupo pode ser conservada por mais tempo que a forma individual mediante a sistemática rotação dos jogadores (MATVÉIEV, 1986).

Ainda dentro da estrutura de preparação do atleta, segundo ZAKHAROV & GOMES (1992), convém destacar os quatro níveis de organização:

  • macrociclo;

  • mesociclo;

  • microciclo;

  • sessão de treinamento.

O macrociclo, dentro da periodização do treinamento desportivo, engloba o período preparatório, o período competitivo e o período de transição. É a soma de todas as unidades de treinamento necessárias para elevar o nível de treinamento do atleta (BARBANTI, 1997).

Já o mesociclo representa o elemento da estrutura de preparação do atleta e inclui uma série de microciclos, que, por sua vez, representam o elemento de estrutura de preparação do atleta, o qual inclui uma série de sessões de treinamento ou competições orientadas para a solução das tarefas de um dado macrociclo (ZAKHAROV & GOMES, 1992).

Por fim, encontra-se a sessão de treinamento, que é a menor unidade na organização do processo de treinamento (BARBANTI, 1997). Para ZAKHAROV & GOMES (1992), a sessão de treinamento é o elemento integral de partida da estrutura de preparação do atleta e representa um sistema de exercícios que visa à solução das tarefas de um dado macrociclo da preparação do atleta.

De acordo com SILVA (1995), a tradicional teoria da periodização do treino, direcionada para um quadro competitivo restrito e concentrado, por vezes, não encontra respaldo na realidade do desporto moderno, nem responde às exigências do seu quadro competitivo em virtude das várias competições importantes que acontecem no decorrer de toda a temporada esportiva. Para o autor, o esporte de alto rendimento tem se modificado no sentido de uma maior profissionalização dos atletas, com exigências de resultados mais elevados, freqüentes e estáveis para atender às exigências impostas pela lógica do espetáculo e do lucro financeiro. Tais características do esporte de alto nível têm imposto ao atleta a necessidade de manter-se durante mais tempo em condições para a obtenção de elevados resultados, e a intensa especialização dos processos de treinamento tem se confrontado com alguns aspectos das elaborações teóricas existentes, os quais têm sido alvo de críticas e exigências de revisão (SILVA, 1995).

Um dos aspectos que têm sido bastante questionados atualmente, dentro da estrutura de preparação do esporte de alto rendimento, diz respeito à concepção da forma esportiva como uma fase curta de cada temporada esportiva do atleta, que deve ser cuidadosamente conduzida para manifestar-se por ocasião das competições mais importantes (SILVA, 1995). Tal concepção tem sido questionada por treinadores e estudiosos do assunto, fundamentados na necessidade de se atender às exigências cada vez maiores de prolongamento do período competitivo.

As divergências sobre a forma esportiva têm apresentado duas tendências: uma que admite a possibilidade da manutenção da forma por muito tempo – tendência que se confronta com a concepção de Matvéiev – e outra que, reconhecendo a validade dos princípios teóricos e a realidade do desporto atual, recomenda um ordenamento do calendário e uma atitude seletiva do atleta frente a esse calendário, de forma que a participação em competições fora do período competitivo seja considerada como componente do processo de treino e obedeça a uma ordem crescente de exigências (SILVA, 1995).

De acordo com SILVA (1995), no conjunto das propostas e experiências para a reformulação ou aperfeiçoamento dos fundamentos e orientações para a estruturação do treinamento de alto nível, é possível a identificação de características comuns, das quais se destacam:

  • redução do tempo dedicado aos trabalhos de natureza geral em benefício dos trabalhos de natureza específica e competitiva;

  • maior duração do período de predisposição do atleta para a realização de resultados considerados de nível elevado;

  • aumento das participações em atividades competitivas;

  • busca de máxima otimização dos efeitos positivos das cargas de treino.

Na tentativa de adequar a periodização do treinamento desportivo à difícil realidade dos calendários de competição e à crescente especialização por que vêm passando os treinos dos atletas, têm sido elaboradas algumas propostas alternativas das quais é possível destacar: a estrutura do treinamento pendular, a estrutura modular por saltos, a estrutura de treinamento em blocos, o treinamento estrutural, a estruturação individual do treino e a estrutura de treinamento para as modalidades coletivas (TSCHIENE, 1985; BOMPA, 1994; SILVA, 1995).

2. Treinamento pendular

Esta sistemática para estruturação do processo de treino foi proposta por Arosjev na década de 1970 (SILVA, 1995) e se constitui numa tentativa de aperfeiçoamento do sistema proposto por Matvéiev, pois se orienta pelos princípios da teoria do referido autor. De acordo com TSCHIENE (1985), pode-se concluir que a estrutura pendular de Arosjev representa apenas uma reforma da periodização do treino de Matvéiev, já que a tradicional subdivisão em períodos não é desconsiderada. O treinamento pendular tem como proposta básica a obtenção de vários momentos da forma, a fim de atender às necessidades do calendário de competição, e fundamenta-se na alternância sistemática entre cargas específicas e gerais. De uma maneira geral, as cargas gerais decrescem ao longo do período até praticamente desaparecerem por ocasião das competições mais importantes, ao passo que as cargas de natureza específica crescem a cada ciclo de treino (SILVA, 1995). Essa alternância na natureza das cargas em um mesmo ciclo de treino é responsável pela formação do chamado pêndulo (SILVA, 1998).

Quanto menores são os pêndulos durante o processo de treinamento, maiores serão as condições de competir eficazmente, todavia se os pêndulos são maiores, maior será a possibilidade de sustentar a forma desportiva por um tempo maior por parte do atleta (FORTEZA DE LA ROSA, 2001).

Sinteticamente, nessa forma de organizar o treinamento desportivo fica evidente que se mantém a importância das cargas gerais de treinamento e que existe a relativa separação igual, mas em menor escala, do que na periodização do treinamento de Matvéiev é a preparação geral e a específica (FORTEZA DE LA ROSA, 2001).

3. Treinamento modular

Elaborado também na década de 1970 por Vorobjev, este modelo de treino foi utilizado principalmente pelos halterofilistas (TSCHIENE,1985) e apresenta como características: a aplicação de mudanças bruscas e freqüentes no volume (variações de 30 a 50% entre um a dois meses e média de 35% ao longo do ano) e na intensidade (oscilações mensais entre 20 a 25%, com média de 11%) das cargas; ao longo de toda a temporada, as cargas de natureza específica assumem um caráter predominante; o ciclo anual das cargas de treino é organizado na forma de pequenas ondas uma vez que o treinamento não deve ser projetado para determinar uma transferência a longo prazo dos efeitos da carga (SILVA, 1995).

Com relação à proposta deste modelo em que as cargas de natureza específica assumem um caráter predominante ao longo da temporada, é considerado por TSCHIENE (1985) um progresso na teoria do treinamento desportivo. Da mesma forma, SILVA (1995) acredita que a proposta de Vorobjev se constitui no primeiro modelo a, efetivamente, estabelecer um certo afastamento dos esquemas da periodização clássica de Matvéiev.

4. Treinamento em bloco

No final da década de 1970 e início de 1980, Verchosanskij divulgou os resultados das suas experiências do treinamento em blocos, que consiste na concentração de cargas unilaterais, formando verdadeiros blocos de treino específicos, os quais se desenvolvem por aproximadamente dois meses, levando-se em consideração os seguintes fatores:

  • desenvolvimento da força como preocupação central das experiências desenvolvidas;

  • o trabalho de força, para que seja eficaz, deve ser concentrado, o que pode prejudicar, num primeiro momento, as adaptações no campo da técnica e da velocidade, porém tem como objetivo central criar pré-requisitos para os programas de treinamento posteriores;

  • utilização do efeito posterior da carga para assegurar a continuidade da melhoria da força rápida após um trabalho concentrado de força, além de criar as condições ideais para o aprimoramento da velocidade e da técnica do exercício competitivo.

  • concentração de cargas unilaterais como recurso eficaz para elevar o alto nível de preparação específica conseguido pelos atletas após muitos anos de treinamento (SILVA, 1995).

De acordo com VERCHOSANSKIJ (1983), para a elaboração dos blocos de treino, deve haver uma definição clara das necessidades de cada esporte a fim de possibilitar o melhor ordenamento dos efeitos do treino específico, uma vez que as cargas precedentes devem assegurar condições funcionais para as cargas seguintes.

O modelo em referência divide-se em dois grandes blocos: de preparação e de competição, um mais volumoso e menos intenso e o outro mais intenso e menos volumoso, no qual deverão ocorrer os melhores resultados. Inicialmente, no treinamento por bloco, estabelece-se a utilização de um bloco de treinamento volumoso e concentrado, com mais ou menos dois meses de duração, direcionado para a força. Aproveitando os efeitos posteriores do trabalho de força, intensifica-se o treino sobre a velocidade, a técnica ou a resistência específica, durante o qual acontece a primeira etapa competitiva (SILVA, 1995).

A segunda etapa de preparação inicia-se com um novo bloco de trabalho de força, menos volumoso e mais intenso, seguido de nova concentração de trabalho sobre as qualidades específicas predominantes em cada esporte e outro período dedicado às competições (SILVA, 1995).

O sistema de treinamento em blocos pode ser estruturado de forma diferenciada, de acordo com as exigências e especificidades das modalidades esportivas ou as respostas do organismo aos efeitos do treino. Dentre as principais variantes do modelo referido destacam-se as seguintes: modelo ATR, sistema tetracíclico para nadadores e modelos de blocos em progressão (SILVA, 1998).

Para TSCHIENE (1985), em geral, o modelo estrutural de Verchosanskij pode ser considerado um avanço dentro do planejamento do treino desportivo e uma diferenciação, de fato, do conteúdo proposto pelo modelo de periodização de Matvéiev. No entanto, de acordo com SILVA (1998), a elaboração de blocos específicos de treino capazes de atender às exigências da modalidade esportiva e, ao mesmo tempo, de se interligarem de forma lógica e racional demanda um elevado nível de conhecimento da modalidade esportiva considerada e uma especial atenção ao conceito de sucessão/interconexão, entendido como a separação dos trabalhos incompatíveis e aproximação dos que se complementam, de forma a estabelecer o necessário encadeamento de conteúdos e a indispensável continuidade nas cargas de treino.

Para FORTEZA DE LA ROSA (2001), a “Estruturação de Sucessões Interconexas, fundamenta-se basicamente no caso de que o trabalho de força deve ser concentrado em bloco de treinamento para criar condições de melhoria posterior nos conteúdos do treinamento relacionados ao desenvolvimento técnico e à qualidade da velocidade do atleta. Essas condições são dadas pelo chamado efeito de acumulação retardado do treinamento (EART)”. Ainda de acordo com FORTEZA DE LA ROSA (2001), o conceito da Estruturação de Sucessões Interconexas é fundamental para essa forma de periodização do treinamento desportivo, pois constitui a estruturação do treinamento em blocos. O efeito do treinamento posterior, a longo prazo, indica que os efeitos obtidos depois de sucessivas sessões de aplicação de carga de força em um bloco concentrado, que pode durar várias semanas, criam as bases condicionantes para o treinamento das demais capacidades dos atletas e para o aperfeiçoamento da técnica. Para FORTEZA DE LA ROSA (2001), na prática, essa estrutura de treinamento toma forma quando se concentram em diferentes blocos os aspectos físicos e técnico-táticos: em um primeiro bloco, trabalha-se com determinação as capacidades físicas, predominantemente a força; em um segundo bloco, as questões técnicas e táticas.

5. Treinamento estrutural

Também desenvolvido no final da década de 1970, o esquema de treinamento estrutural foi proposto por Peter Tschiene para o treinamento de alto nível, partindo do ponto de vista das experiências da antiga República Federal alemã (TSCHIENE, 1985). O treinamento estrutural é um esquema de treino voltado, sobretudo, aos esportes de elevada exigência no campo da força rápida e baseia-se na elevação e manutenção da intensidade e do volume da carga durante todo o ciclo de treinamento, com o objetivo de alcançar rendimentos elevados durante quase toda a temporada. TSCHIENE (1985) destaca as seguintes características do treinamento estrutural:

  1. dinâmica das cargas em forma de pequenas ondas, com uma destacada e permanente alternância entre volume e intensidade;

  2. predominância da intensidade em unidades de treino relativamente curtas, nas quais se destacam as cargas de competição;

  3. controle individual das competições como procedimento para o desenvolvimento e manutenção da forma por intermédio do incremento da intensidade específica;

  4. introdução do “intervalo profilático” após as cargas específicas e antes da competição, proporcionando ao atleta o descanso que deve anteceder a sua participação nas competições.

Para TSCHIENE (1985), o treinamento estrutural não se diferencia completamente da idéia tradicional de periodização proposta por Matvéiev.

6. Treinamento individualizado de Bondarchuk

Campeão olímpico e recordista mundial do lançamento de martelo, Bondarchuk, atualmente como treinador de atletismo, tem influenciado significativamente as teorias sobre a periodização do treinamento desportivo (TSCHIENE, 1985; SILVA, 1995). Na estrutura de treinamento individualizado proposta por Bondarchuk, destacam-se as seguintes características:

  • absoluta individualização do treino, tanto em termos de composição e estruturação das cargas de treinamento quanto da definição dos períodos de incremento e redução das cargas, a fim de atender às características da forma de cada atleta;

  • ciclo de treino composto por três períodos, que correspondem às três fases da forma esportiva – desenvolvimento, conservação e descanso, ou, então, aquisição, manutenção e perda temporária. Esses períodos podem se repetir mais de uma vez no ano e apresentar combinações diferentes, com uma duração bastante variada, de acordo com as características individuais dos atletas;

  • evolução das exigências do treino e conseqüente melhoria da capacidade de prestação, em razão da mudança do conjunto dos exercícios, e não da dinâmica das cargas;

  • ao longo da temporada, utiliza-se uma grande quantidade de exercícios específicos, com intensidade elevada e sem grandes variações no volume de treino (SILVA, 1995).

Na proposta de Bondarchuk, a fase de manutenção da forma dura em torno de quatro semanas, ao final das quais o conteúdo do treino deve ser renovado em cerca de 50%. As possibilidades de variações da estrutura do treino (forma de intercalar os períodos de desenvolvimento e manutenção com o de repouso) variam de acordo com as respostas adaptativas do atleta; daí a necessidade de se conhecer profundamente o atleta e suas reações ao treinamento (SILVA, 1998).

7. Estrutura de treinamento para as modalidades coletivas

Segundo SILVA (1995), a teoria de Bompa sobre os níveis da forma esportiva são utilizadas como fundamento para a estruturação de modelos de treino para os esportes com calendário de competição extenso, notadamente os esportes coletivos.

Na abordagem apresentada por BOMPA (1994), o autor considera a forma esportiva como um processo no qual se sobrepõem, em seqüência, três diferentes estágios de prontidão esportiva: forma geral, alta forma e ótima forma.

O primeiro estágio - forma geral - representa um nível bastante elevado no plano das capacidades físicas e das habilidades motoras necessárias à prática de uma determinada modalidade (BOMPA, 1994). Constitui-se num estágio de treino bastante elevado e representa uma pré-condição para aqueles que pretendem a obtenção de resultados de altíssimo nível (SILVA, 1995).

O nível denominado de alta forma esportiva ou forma atlética está baseado no nível de treinamento anterior (forma geral) e se mantém mais ou menos estável durante um período de tempo relativamente longo (período competitivo), constituindo-se, dessa forma, no nível de prontidão esportiva dos atletas das modalidades coletivas com período competitivo extenso (BOMPA, 1994; SILVA, 1995).

O último nível, denominado ótima forma, representa a prontidão do atleta para a obtenção ou superação do seu melhor resultado e deve acontecer a partir do nível da forma anterior, ou seja, da alta forma, podendo ter várias manifestações (duas a quatro) em períodos curtos (sete a dez dias) da temporada de treino (SILVA, 1995).

Assim, tendo como base nos níveis de forma esportiva proposto por Bompa, a estruturação do treinamento para os esportes com calendário esportivo extenso apresenta as seguintes características:

  • redução dos trabalhos de natureza geral, com elevadas concentrações no volume das cargas em benefício da especialização do treino;

  • definição de modelos estruturais de treino em função das características e das exigências competitivas de cada modalidade; a dinâmica das cargas assume características muito particulares – no período preparatório, as cargas de treino sofrem aumentos diferenciados no volume e na intensidade de acordo com a modalidade considerada; a partir do momento em que se atinge a fase competitiva, as cargas tendem a uma estabilização relativa, em termos de grandes ondas, para sofrerem alterações freqüentes de volume e intensidade em um nível das microestruturas de treino;

  • o procedimento cíclico centrado nas microestruturas de treino, em razão da incompatibilidade entre grandes ondas de treino e da freqüência das competições consideradas importantes.

Considerações finais

Para SILVA (1995), “a maioria das propostas de periodização do treinamento desportivo foram elaboradas e experimentadas em situações e realidades distintas, e todas elas, nas especificidades em que foram aplicadas, apresentaram resultados positivos e em alguns casos até superiores à periodização tradicional. No entanto, ainda carecem de maior diversificação em termos experimentais, para que lhes seja garantida a necessária consistência e o indispensável respaldo prático para aplicações mais genéricas”.

Parece claro que a utilização de uma ou de outra estrutura de periodização do treinamento desportivo depende, basicamente, do esporte cujo treinamento se pretende planejar e, consequentemente, alcançar a forma esportiva, isto é, se o esporte é coletivo ou individual; se predominam características de força ou resistência, ou, então, uma forma combinada de ambas as capacidades, além da preocupação com o tempo disponível para a preparação do atleta, assim como a duração do período competitivo a que o atleta será submetido (calendário de competição). Seja qual for a estrutura de treinamento escolhida, essa deverá ter como objetivo provocar adaptações no organismo do atleta para que obtenha a forma esportiva exatamente no momento ou momentos mais importantes do calendário competitivo.

Referências

  • BARBANTI, V.J. Teoria e prática do treinamento esportivo. 2.ed., São Paulo: Edgard Blücher, 1997.

  • BOMPA, T. Theory and methodology of training – the key to athletic performance. Iowa: Kendall – Hunt, 1994.

  • FLECK, S.J. & KRAEMER, W.J. Fundamentos do treinamento de força muscular. 2ª ed., Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.

  • FORTEZA DE LA ROSA, C.A. Treinamento desportivo: carga, estrutura e planejamento. São Paulo: Phorte Editora, 2001.

  • MATVÉIEV, L.P. Fundamentos do treino desportivo. Lisboa: Livros Horizontes, 1986.

  • SILVA, F.M. Para uma nova teoria da periodização do treino – Um estudo do atletismo português de meio-fundo e fundo. Tese de doutorado, 359p. Faculdade de Ciências do Desporto e da Educação Física – Universidade do Porto, 1995.

  • SILVA, F.M. A necessidade de novas elaborações teórico – metodológicas para o treino desportivo: Uma realidade que se impõe. Revista Horizonte, v. XIII, n. 76, mar./abr, 1997.

  • SILVA, F.M. Planejamento e periodização do treinamento desportivo: mudanças e perspectivas. In: Treinamento desportivo: reflexões e experiências. João Pessoa: Editora Universitária, p. 29-47, 1998.

  • TSCHIENE, P. Il ciclo annuale d’allenamento. Revista di Cultura Sportiva, ano IV, n. 2, p. 16-21, 1985.

  • TUBINO, M.J.G. Metodologia científica do treinamento desportivo. 3.ed., São Paulo: Ibrasa, 1984.

  • VERCHOSANSKIJ, I.V. Principios de entrenamiento para atletas de élite. Revista Stadium, n. 99, p. 3-8, 1983.

  • ZAKHAROV, A. & GOMES, A.C. Ciência do treinamento desportivo. Rio de Janeiro: Grupo Palestra Sport, 1992.

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